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Entrevista com Júlio Conte - Dramaturgo e Psicanalista

Neste ano o sucesso “Bailei na Curva” completa 34 anos de história, em celebração o espetáculo entra em cartaz no mês de maio em duas apresentações no palco do Theatro São Pedro. O SuperTransado aproveitou a oportunidade e conversou com Júlio Conte, autor e diretor deste espetáculo que alegra e emociona a mais de três décadas. 

Júlio é psicanalista, diretor de teatro e dramaturgo. Nasceu em Caxias do Sul em 1955. Formou-se em Direção Teatral no ano de 1984 e em Medicina no ano de 1985, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fez Curso de Especialização em Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica no Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre em 1990.

 

Confira o bate-papo com o dramaturgo gaúcho Júlio Conte.


ST)- Júlio, você tem um histórico primoroso, escreveu e dirigiu grandes e
premiados espetáculos, quais foram as principais dificuldade nesta
caminhada?

Fazer arte no Brasil sempre tem um rastro de impossibilidades. Não saberia dizer o que é mais significante. A divulgação carente, a ausência de investidor, falta de incentivo, isolamento politico e assim poderia encabeçar a lista, mas todas são resultados de uma cultura na qual a Cultura não é valorizada. Costumo dizer que todo mundo admira, respeita e adora o teatro, mas não frequentam. Mas a resiliência é soberana e em que pese todas as dificuldades, o teatro dentro de mim nunca me deixou esmorecer. Agradeço a esta forca dionisíaca, essa alegria básica que não tenho certeza de onde vem.  


ST)- Um começo, meio e fim, não é o importante para quem assiste um
espetáculo seu, devido a consistência, o texto em seu processo de
criação, ele é originado do que ? Uma inspiração, um tema, um momento ou
o que mais?

Te agradeço esta pergunta, pois me dá a chance de falar de um tema que adoro. As peças já tiveram inicio, meio e fim. Depois evoluíram para inicio meio fim, mas não nesta ordem, até que prescindiram destes elementos do drama. Aparentemente temos uma falência da forma. Estamos frente uma nova estética. Uma boa ideia tem que vir acompanhada de uma boa forma. O conteúdo das tramas segue fazendo significado, as motivações e as personagens, mas questão essencial é a forma que a narrativa se articula e a cronologia se altera. Para os gregos o tempo tem duas vicissitudes. O Cronos é linear, segue o caminho invariável e inevitável em direção ao fim, a ao cabo que vai devorar os filhos. Mas também tem o Kayros que é o tempo circular, tempo dos deuses através do qual o sentido e os significados obedecem a uma circularidade.


ST)- Espetáculos como Bailei na Curva e Se Meu Ponto G Falasse não só romperam as fronteiras do Rio Grande como fazem sucesso a muitos anos, com novas montagens e adaptações, qual sua visão para ótima aceitação do público?

Sempre levo em conta o publico pois é a entidade que escolho para dialogar. Não se trata de qualquer público e menos ainda fazer qualquer coisa para que ele frequente o teatro. O público é o interlocutor máximo. Amo e respeito o público e te-los nos espetáculos é uma honra. Ultrapassar  fronteiras sempre foram um alvo, gosto de imaginar que uma peça pode modificar o público e atravessar a cesura do tempo/espaço. 


ST)- O espetáculo Bailei na Curva tem duas sessões em maio no Theatro São Pedro, sobre sua direção, um grande espetáculo para um belíssimo teatro, ainda existe aquele fervor para mais uma apresentação?

Cada vez mais! Bailei se atualiza cada dia. Já foi um peça bisturi, em 1983 quando lancetou um abcesso social. Depois se tornou uma peça histórica e agora, frente aos decisões sucessivamente pífias do Brasil tornaram a peça atual. Além disso, os atores, jovens que não viveram os anos 60, estão agora vivendo nossos dias de simetria, e esta realidade especular parece tornar os atores muito mais engajados com o texto. 


ST)- São mais de 20 espetáculos, grandes sucessos de crítica e público, o que seria um desafio novo para você?

Meu plano atual é construir um publicação sistemática da minha obra. Pois para cada espetáculo quer foi apresentado, sobraram o dobro de cenas, textos, personagens e anotações. Ainda estou precisando de uma editora legal para realizar tal projeto. Enfim, o que fiz até agora está feito, mas me imagino sempre visando o futuro. Acordo todas as madrugadas com ideias que vou anotando com paciência como que colhe sementes para um dia plantar. 


ST)- Para encerrar esta breve entrevista, o teatro, hoje em dia, é o
mesmo da década de 80? Quais foram as grandes conquistas no âmbito
teatral?

Não. O teatro nos anos 80 tinha um sonho, um projeto, um vértice que apontava para uma comunhão com o imaginário social. Havia um sonho coletivo. O teatro gaúcho produziu grandes espetáculos impressionantes, marcantes e referenciais, mas nossos tempos são de evanescências. O transitório não deixa rastro o que resulta em começar do zero a cada produção. Disso se conclui que nossos dias atuais são de projetos individualistas cujo objetivo visa segmentos restritos e específicos. 

 

Entrevista Diego Patito para o Super Transado.

Foto divulgação.

Autor / Fonte: Super Transado
Tags: Bate Papo
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